vejo-te distraída morder uma castanha que apanhei entre
as folhas da relva numa incursão por centenas de quilômetros percorridos por dias
e noites famélicos e insones ao ventre da floresta sem perceber minha intenção de tatuar em nossos corpos o teu-meu poema com original substância impregnada desementes gotejar teu corpo com o orvalho que repousou na pétala iridescente da flor endêmica de um lago de águas negras que por singular disposição de ângulos único a refletir a imagem solitária de nossas estrelas tangentes juntar exótico néctar derivado da mescla de essências extraídas de sagradas plantas calidamente amalgamados cobrir lentamente tua geografia fazendo-os córregos convergir ao teu âmago misturar a teus humores minha saliva produzindo poderoso elixir capaz de cicatrizar os sulcos dolorosos causados pelos ventos dos teus medos inebriar-te os
sentidos com torrencial erupção cauterizar os cistos de impronunciados nãos não suspeitando que bastaria um sim no olhar para libertar-me da masmorra a qual me encerra resgatar-me do degredo a que me
envias por mera distração estando somente atenta ao rouco estralar da
castanha partindo o olhar dirigido ao nada para me por em movimento
porque é sábado
como uma deliciosa feijoada
quando um mendigo
barbudo, sujo e maltrapilho
entra no restaurante cristão
nas mãos um saco com peixes
outro com legumes
dirige-se ao balcão
pergunta se podem
fazer o favor
de cozinha-los para ele
negam-se
vendo-o partir
perco a fome e engulo lágrimas